Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Entrevista ao Dr. Henrique Alves, do Parque das Dunas da Aguda

Entrevista ao Dr. Henrique Alves, do Parque das Dunas da Aguda

 

3 de Dezembro de 2007 - 10 horas

Entrevistador: Para começar gostaríamos de saber o que é o Parque das Dunas, quando e como foi criado e porquê.

Dr. Henrique Alves: Ora bem, o Parque Dunar foi criado em 1997 ao abrigo de um programa comunitário chamado LIFE pertencente à CEE, programa esse de educação ambiental, que consistia na sensibilização da população que habita junto ao litoral para a conservação/protecção das dunas. O projecto chama-se Dunas, conhecer e conservar e permitiu não só vedar este espaço que vêem aqui na Aguda, como também permitiu adquirir um autocarro, fazer uma série de vídeos que foram divulgados nessa campanha e nesse programa. Quando esse programa terminou ao fim de três anos (ano 2000), a Câmara de V.N. de Gaia decidiu continuar com o projecto, (nessa altura o Parque Biológico ainda era uma dependência da Câmara e, entretanto passou para uma empresa municipal que pertence à Câmara mas que já tem outras atribuições), que é praticamente aquilo que vocês vêem agora, isto é, temos uma pequena casa, o autocarro, continuamos a fazer sensibilização ambiental, levamos escolas e universidades ao longo do litoral (Cabedelo- S.Jacinto). A área que este Parque ocupa tem como função proteger as dunas, as espécies e o habitat, porque protegendo o habitat e as dunas protegemos tudo o resto, isto é, protegemos a paisagem, as espécies que cá vivem e as que o usam, nomeadamente duas espécies de plantas bastante raras, uma delas é endémica do Douro litoral, isto é, só existe no Douro litoral; a outra existe praticamente em todo o litoral norte até à linha de Esmoriz; existe ainda outra que é endémica da Península Ibérica, mas que já não tem tanta importância. A mais importante do ponto de vista da conservação chama-se Coincya johnstonii que é uma planta da família das couves que vive nas dunas; a outra chama-se Jasione lusitanica que também vive sobre as dunas. Mas obviamente que o parque não protege só isso, protege também a nidificação dos borrelhos e a de outras aves, protege os animais que usam as dunas, nomeadamente as aves que migram e usam as dunas para se alimentarem e para descansar; protege as outras plantas que aqui vivem; além disso, tem também uma função muito importante que é proteger as casas e as populações do avanço do mar uma vez que, as casas que se encontram muito próximas do mar, a única coisa que as separa do mesmo são estas dunas que aqui estão, se estas dunas desaparecessem, como acontecia antes do Parque Dunar existir, o mar chegava à marginal. Antigamente existia um grande buraco na parte sul do Parque que entretanto foi reabilitado, se não o tivesse sido o mar chegava até à marginal.

    

Entrevista ao Dr. Henrique Alves

E.: Que medidas têm sido tomadas para proteger essas espécies raras?

Dr. H.A.: Tem sido feita a vedação do espaço para evitar o pisoteio, já que o pisoteio é o pior inimigo das plantas dunares e eu explico porquê: as plantas dunares vivem numa situação de stress permanente de falta de água, amplitudes térmicas brutais, por exemplo num dia de Verão elas apanham muito Sol ao meio-dia e depois durante a noite há a brisa; falta de nutrientes, porque a areia não tem muitos e, ainda por cima, todas as plantas têm um sistema radicular bastante frágil e se passarem por cima delas partem-se todas e, consequentemente, morrem. Também fazemos a erradicação das exóticas, isto é, todo o chorão que existia dentro do parque foi retirado à mão para não destruir as outras plantas e foram colocadas paliçadas para recriar uma duna. Não fizemos qualquer intervenção a nível de plantações, porque a introdução de novas plantas só é necessária se não existirem outras plantas, caso contrário até pode ser prejudicial, visto que estamos a introduzir genes alheios a este sistema, que podem contaminar geneticamente as nossas populações que são, na maior parte dos casos, muito especiais e que já evoluíram bastante e, por isso, há uma diferenciação genética que não corresponde à nossa e ao nosso património.

Fotos: Henrique Alves

 

E.: Há alguma coisa a ser feito a nível da divulgação em relação às espécies raras?

Dr. H.A.:  Fazemos todos os anos acções do Ciência Viva, fazemos acções no litoral com pessoas que trazemos de autocarro, essas pessoas podem fazer o percurso seguindo-se por um guião que está disponível na nossa página e também fizemos dois filmes em vídeo que contribui igualmente para a divulgação.

 

E.: Há algum folheto de divulgação sobre a Coincya jonhstonii?

Dr. H.A.: Não há nenhum folheto específico sobre ela, por duas razões: uma delas deve-se ao facto de não ter nome vulgar e a outra é que como é uma planta tão rara as suas populações estão todas concentradas aqui no Parque. Esta planta já apareceu em alguns programas televisivos relacionados com a ciência e eu acho que isso é uma boa forma de divulgação.

 

E.: Que diligências estão a ser feitas para sensibilizar a população para a importância da conservação das dunas?

Dr. H.A.: Já fizemos vídeos, toalhetes de mesa que foram distribuídos ao longo dos bares do litoral, foram colocados painéis com a história do ostraceiro que é a nossa mascote...

 

E.: E a existência do passadiço ao longo do litoral prejudicou de algum modo o trabalho desenvolvido neste Parque?

Dr. H.A.: Não, de modo algum, porque o passadiço foi feito fora do Parque das Dunas e fez com que mais pessoas se apercebessem dos problemas do litoral e mais viessem até ao mesmo e, portanto, as pessoas tornaram-se mais conscientes dos problemas da degradação, limpeza e, portanto, isso é benéfico. Na minha opinião a conservação não deve ser feita com o proibir de ver ou visitar, as pessoas têm que saber o que estão a proteger e porque é que protegem e só assim é que se consegue sensibilizar as pessoas. Temos uma parte no Parque que não é visitável, mas não o é por razões de conservação que é para evitar que as aves que lá nidificam sejam perturbadas.

Vista aérea da Área ocupada pelo Parque de Dunas

E.: Relativamente ao futuro, quais são os principais projectos do Parque das Dunas?

Dr. H.A.: Para já vamos remodelar o parque que é uma obra bastante grande que num futuro breve dará uma nova cara ao Parque, a manutenção diária e a preservação do espaço, retirar caixotes do lixo e sacos de lixo do lado de fora do Parque e a sensibilização tem que continuar.

E.: Antes de terminarmos gostaria de saber qual é a sua opinião relativamente à continuação deste passadiço de modo a ligar os pólos importantes da vila, por um lado a parte litoral e, por outro lado, a parte central.

Dr. H.A.: O Parque Biológico de Gaia tem um programa parecido com isso que são os Parques de Gaia. A ideia da Câmara quando fez esse tipo de projectos era fazer uma rede que permitisse que as pessoas se deslocassem pelos espaços verdes da freguesia. Porém não se pode chegar lá e fazer tudo de uma só vez, o que interessa é haver a vontade política e objectiva de fazer, porque tem implicações muito graves no trânsito, a questão das desapropriações entre outras coisas. Dá para indicar o percurso mas não dá para criar o percurso em si. Mas essa intenção existe e também existe o projecto quer da Câmara quer do Parque Biológico. A continuidade da linha verde é fundamental pois traria mais gente aqui e ao resto da freguesia, quer de carro quer a pé.

  

  

Parque de Dunas

publicado por Coincya às 14:44
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